H. Manon. 2020. ‘Ocaso (conto balzaquiano)’. In: Parem as máquinas! Conto. Paraty: Selo Off Flip.



Gozei com ele ali, entre minhas pernas, olhos nos olhos. Carlos era mestre em adaptar o trabalho da língua ao som de meu prazer de modo a fazer-me convulsionar antes do orgasmo. Mas os tremores foram poucos – poucos para nós, que conhecíamos a intensidade de outrora.

Nosso caso era longo: dois anos a menos que o casamento dele, um a mais que minha relação recém-terminada. Em nossa única foto juntos, aos vinte anos mal completos, ele sorri sereno, a cabeça levemente inclinada em direção a meu ombro. Confortável no vestido branco, eu pareço acolhedora. Era o momento de saltarmos, mas tememos o abismo. Do restante encarregou-se o acaso.

A dança de nossos desejos, evitações, projeções e pequenos rancores levaria um observador mal informado a supor que partilhávamos as desventuras do casamento. Talvez porque o tenhamos feito, ora no plano da imaginação, ora com outras pessoas – cada qual com sua fantasia, meus tremores a fazer a ponte.

Eu postergava a hora de ir embora. Ele aquiescia, como se soubesse que nossa promessa de reencontro encobria uma impossibilidade. Senti seu pau amolecer na boca após o orgasmo. Meses antes, eu desejara ter concluído assim a foda com o amante que imaginava reencontrar em breve. Mas fomos sacudidos pelo tufão dos desejos alheios, mais fortes que os nossos. Distraída, despedi-me do pau daquele outro que hoje encontrava pregado ao corpo deste que eu estranhava.

Vinte minutos depois eu o deixava na esquina de casa. Atrasado, ele não olhou para trás. Manobrei o carro para pegar a estrada.

Era madrugada e minha casa dormia. Tão silenciosamente quanto possível, enfiei o dedo na garganta e vomitei. Ao contemplar nossas secreções boiando na privada, chocou-me a materialidade indiferente do fim.

H. Manon